| Vivaldo S. Melo*
O drama do Haiti tem motivado a postagem de centenas de textos reflexivos nos últimos dias pelo mundo afora. Um dos enfoques mais comuns tem sido aquele que atribui a tragédia à opção religiosa de grande parte daquele povo. Um cônsul foi até taxativo, culpando a “macumba haitiana-pela-desgraça (sic), fazendo também um comentário racista sobre a ascendência daquele povo sofrido. Nesta linha, textos e sermões proliferaram.
Particularmente acho o enfoque no mínimo infeliz e perigoso. Acredito sim, antes que me julguem, que a presença de Deus, numa cultura, como referência maior de fé, é sinônimo de bênçãos. Arrisco até um exemplo: na comunidade terena de Aquidauana, onde atuei como assessor de imprensa do atual prefeito, há uma forte presença do cristianismo como expressão de fé. Por outro lado, conheço uma etnia, no norte, que tem uma religiosidade impregnada de valores do paganismo. Basta contrastar as duas culturas, para se ver a diferença. Impressionante!
Neste caso, é certo que o “modus vivendi” de cada comunidade é reflexo dos valores que seus componentes adotam. Não acredito, contudo, que Deus mandaria uma tragédia para uma comunidade onde seus filhos são minoria, em detrimento da maioria pagã, nestes tempos de Nova Aliança. Dai, podemos até concluir que a miséria predominante no Haiti tem relação direta com os valores espirituais que a maioria de seu povo abraça. Não acredito, por exemplo, que algo bom possa vir do vodú, prática predominante por lá.
Mas, Deus mandar um terremoto para devastar um povo é uma tese perigosa, até por uma razão de caráter natural; a ilha é uma das regiões do Mundo sujeitas a terremotos. Como não lembrar que a cidade de Los Angeles, onde constantes tremores menores acontecem, está sobre falha geológica? Nesta metrópole, encontra-se talvez a maior comunidade gay do mundo. Um terremoto de grandes proporções, que segundo os estudiosos pode acontecer, seria então uma manifestação da ira de Deus?
Tenho dificuldades em dizer sim, prontamente, como alguns fazem. Entendo que o assunto é complexo. Se posso arriscar algum questionamento, prefiro fazê-lo com C. 5. Lewis, o criador das Crônicas de Nárnia: Será que Deus não quer despertar o próprio mundo para uma reflexão mais profunda, a partir da dor do povo haitiano? “Deus sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas brada em nosso sofrimento. A dor é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo”, diz Lewis em uma de suas obras.
Neste sentido concordo com alguém que disse que foi necessário um terremoto de gigantescas proporções, para despertar o mundo do seu sono. Agora, quem sabe, muitos poderão ter contato com as realidades que nações como o Haiti enfrentam. Aí dá até para sonhar com o cristianismo demonstrado, ou seja, com ações concretas das nações que se autoproclamam cristãs, muitas das quais obesas em riquezas e pobres em solidariedade, fazendo um impacto extraordinário na cultura haitiana e ganhando espaço, a partir do amor, para revelar o evangelho do Senhor Jesus.
Como “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”, conforme disse Paulo na carta bíblica de Romanos, e como no Haiti, mesmo que minimamente, tem pessoas que amam ao Deus Iavé, mais importante do que determinadas espiritualizações, no momento, é acreditar que Deus pode tornar este mal em bem, não apenas para os sobreviventes desta tragédia moderna, mas para todos nós.
(*) Jornalista e Ministro Presbiteriano em Dourados
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